Lampejares

Observações e outras amenidades

Futuro incerto para o pré-sal, pt.II

Lá nos idos de julho de 2011 escrevi um pouco à respeito das novas reservas de xisto – àquela época eu não sabia a tradução de “shale”, diga-se – e como o desenvolvimento dessas novas técnicas de extração poderiam mudar muitas certezas no cenário mundial do petróleo. Seguindo o foco da imprensa na época, meu principal ponto foi o pré-sal brasileiro. 

Dois anos se passaram e a avidez americana por menor dependência de seus fornecedores excêntricos já conseguiu derrubar preços e, de certa forma, alavancar a indústria americana ao reduzir custos, como coloca o Celso Ming em sua coluna de hoje. 

Há tempos que não escuto mais se falar do famoso peak oil. Tal qual falamos hoje de aquecimento global, o esgotamento das reservas de petróleo prometia ser uma certeza, uma premissa para projeções de futuro… Onde estão seus Deuses agora?

Chega a ser amedrontador pensar no que as ditaduras do petróleo, como a Venezuela, fariam em meio a uma situação onde sua principal fonte de renda começa a diminuir. O que dizer da Rússia, então? Conscientes da fraqueza das “monoculturas”, há décadas os Emirados tem procurado diversificar sua economia, focando em outros setores como o turismo. Ainda que o estouro da crise de 2008 tenha provado que esses novos setores ainda não se estabeleceram por conta própria, a intenção é louvável. 

A história do xisto promete. Mais capítulos a seguir.

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Bitcoin

A primeira vez que li à respeito do que parecia ser mais um software nesse mundo peer-to-peer foi num artigo da Economist, explicImageando ao mundo o que era esse sistema financeiro completamente underground. 

Apesar do meu espanto sobre como o Bitcoin foi criado, aparentemente por uma pessoa/grupo que permanece anônimo após anos, a surpresa maior veio quando li menções a uma parcela da população argentina usando a moeda para proteção contra os “humores” da Sra. Kirchner. Até no Irã o sistema já serviu como alternativa para mercados com falta de dólares…  

Em suas poucas décadas de história a internet já foi disruptiva o bastante se contarmos apenas exemplos como o impacto do YouTube na televisão tradicional, os infindáveis aplicativos de comunicação que transformaram a indústria de telecom, os massive online open courses sobre os quais já discorri brevemente. Ainda que algumas plataformas estejam ameaçando remoldar a indústria de pagamentos, nunca imaginaria que seria possível ter-se um sistema financeiro totalmente undeground. 

Tão “Lado B” que o Bitcoin tem usos altamente duvidosos, suas aplicações variando do tráfico de drogas até lavagem de dinheiro. Seria óbvio, então, imaginar que empresas sérias/idôneas manteriam saudável distância deste ambiente, uma vez que o próprio sistema parece ser alvo de ataques hacker que procuram manipular a flutuação da moeda

Ledo engano. O Bitcoin não somente tem crescido como tem atraído investimentos de venture capitalists, apostando em empresas de pagamento que se baseiam no sistema Bitcoin. 

E como isso impacta o baluarte capitalista, o sistema bancário?

Como impressão estritamente leiga, para assegurar a segurança de seus clientes e de sua própria instituição, governos e bancos investem altas somas para criarem redes de transferência/comunicação, além de complexas encriptações, tudo para blindar seu sistema de possíveis fraudes – poderíamos entrar em outra seara aqui comentando sobre o custo de segurar tais operações. 

Comparado ao capital investido em agências, funcionários, etc, o Bitcoin tem absurda vantagem em termos de estruturas de custos. Além da sua manutenção barata, sua expansão ocorre a custos marginais ínfimos dado que sua existência ocorre na “rede”. É capaz, portanto, de oferecer sérias vantagens para aqueles que querem fugir das condições das operadoras estilo Redecard, que cobram altas taxas e alienam os recebimentos por um bom período de tempo. Não é à toa que o próprio Wall Street Journal denota o sistema como uma boa alternativa para pequenos negócios… 

Dificilmente o Bitcoin seguirá para o mainstream algum dia, seja por falta de credibilidade, questões de segurança ou mesmo falta de regulamentação. No entanto, é um dos exemplos mais interessantes de soluções alheias ao stablishment e que nunca seriam possíveis em grande escala sem o advento da internet. 

Daria um bom livro de ficção com tendências conspiracionais. 

Revolução no ensino

Resisti muito sobre esse assunto, vendo posts de amigos no Facebook (entusiastas efusivos do assunto) à respeito, declarando o fim das salas de aula e tantas outras profecias. Mesmo prezando pela moderação, não há como negar que novas iniciativas em termos de ensino remoto tem mudado o panorama da educação de um modo geral, seja na expansão do acesso ou nas mídias utilizadas.

O curioso é que o assunto converge com outro ainda mais voga: startups. Por isso me chamou muita atenção quando vi esta notícia na Exame, contando a história de Marco Fishben e o Descomplica. O que mais me chamou atenção foi o cunho social do trabalho, mesmo que essa não tenha sido a atenção, reduzindo a níveis baixíssimos os custos de uma educação de qualidade.

Não acredito que a sala de aula será extinta, mas confio na complementaridade entre as diferentes mídias e na tendência de equilíbrio em termos de qualidade que iniciativas como o Descomplica podem causar. Muito se fala no Brasil sobre as diferenças de qualidade entre escolas públicas e privadas, mas este novo ensino vira o jogo. Com a quantidade certa de comprometimento, fica muito mais fácil para indivíduos com menos recursos acessarem conteúdos tão bons (ou até melhores) quanto os alunos de cursinhos particulares.

Além do Descomplica e seu foco no conteúdo do Ensino Médio, tem-se outros exemplos importantes como o Khan Academy e, os meus favoritos, Coursera e Open Yale, mais voltados para cursos de extensão e conhecimentos em geral.

As grandes faculdades estrangeiras parecem já estar se mexendo, resta saber o que será feito no Brasil e como as empresas absorverão este novo tipo de formação em seus processos de recrutamento e seleção.

Recomendação: “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”

Image  Havia tempo que eu não terminava de ler um livro em menos 3 de semanas, por menor que fosse. Eis que, após meses encostado em minha escrivaninha e , meio que surrupiado da “biblioteca” de meu pai, finalmente me pus a ler o “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”, de Leandro Narloch, durante uma longa viagem de ônibus.

Fã de história, não poderia deixar este título passar em branco, ainda mais após a leitura da introdução, onde Leandro deixa claro que o objetivo do livro é contestar algumas verdades absolutas que aprendemos na escola.

Passando por contestações do Descobrimento até a Ditadura, a obra aborda diversos temas quase que intocáveis para os leigos: a vitimização dos índios e negros, a caracterização da Esquerda brasileira no século XX como vítima da ditadura e até mesmo a relação do samba com o fascismo e o jazz.

Em alguns momentos o autor beira um estilo parecido ao de Diogo Mainardi, criticando tudo e todos, mas  a riqueza da pesquisa e dos fatos apresentados compensam qualquer lampejo de excesso de crítica.

Vinte e poucos anos

Desde que li o livro “A Criação da Juventude”, de Jon Savage, despertou-me o interesse pela história de grupos sociais, diferenças entre gerações, diferentes contextos, e tudo mais que cerca o assunto. Frequentemente reflito sobre acontecimentos históricos, grandes ou pequenos, e o impacto que terão sobre as próximas gerações.

Além de recomendar a leitura da obra de Jon Savage, uma aula de história sob uma nova perspectiva, endosso também uma matéria recente da revista The New Republic: Generation Whine [link].

Enquanto Savage discorre o contexto dentro do qual nasceu o conceito de adolescência, inexistente até o início do século XX, Generation Whine fala sobre o possível surgimento de uma nova fase da “vida”: emerging adulthood. Resumindo o conceito, seria o momento final da faculdade e o início da vida adulta, onde grandes desafios como arranjar um emprego e sustentar-se parecem um muro intransponível.

Pode parecer “problema de classe média”, e a própria revista destaca este ponto trazendo alguns exemplos de segmentos mais pobres, mas é inegável que o assunto tem ganho relevância nos Estados Unidos e vale o monitoramento. Mudanças de comportamento como essas tem infinitas implicações, seja na psicologia, no desenvolvimento de novos produtos e até mesmo na política…

Um pingo de esperança?

Pode-se dizer com absoluta certeza que as emoções da novela Avenida Brasil ocupam muito mais a cabeça do brasileiro no último mês quando comparado ao julgamento do Mensalão. Enquanto os noticiários ainda se ocupam das últimas atualizações, já é possível analisar o resultado como, no mínimo, positivo.

Confesso que eu era um dos mais pessimistas, achando que as discussões seriam adiadas além do limite da paciência e do bom senso, e que as decisões dos juízes do Supremo Tribunal Federal seriam totalmente dissonantes, resultando em absolvições estapafúrdias.

No entanto, a velocidade com que o processo tem seguido é de impressionar qualquer brasileiro e inclusive a imprensa em geral. O que mais impressiona, porém, são as condenações. Ver o julgamento deste porte sobre um núcleo político é emblemático, mas vê-lo condenado é de reconquistar a a credibilidade da instituição. Não é à toa que a figura de Joaquim Barbosa tem sido retratada nas redes sociais como a um de herói, semelhante ao que aconteceu com o Capitão Nascimento de Tropa de Elite.

Espero que este seja a virada no que diz respeito ao jeito que o país encara a corrupção.

“Islã é a solução”

Sobre os efeitos das novas regras da poupança

Excelente artigo do Drunkeneysian sobre os efeitos das mudanças na poupança brasileira, vale a leitura. 

Au revoir

Uma pena que não tenho mais tido tempo para compilar algumas informações e escrever minhas bobagens por aqui. Não tenho conseguido gerenciar meu tempo da maneira que gostaria para continuar com esse hábito que durou tão pouco.

Estou bastante ansioso para ver o que a derrota de Sarkozy desencadeará na Europa. Dadas as promessas de Hollande durante a campanha, não se preocupando muito com o tamanho da dívida e tentando se manter nas graças da grande massa, espero alguma reação nas bolsas já na segunda-feira. Para quem está desempregado ou vê sua situação em declínio, é muito simples escolher entre quem pretende nos ajudar ou quem defende o sacrifício imediato para a salvação a longo prazo.

Imagino que a Angela Merkel esteja bastante preocupada. Afinal, ela e Sarkozy eram os cabeças da reestruturação econômica da Europa, das cobranças em relação à Grécia, etc.

A vitória de Hollande também respinga em outros assuntos, como imigração, na qual ele me pareceu mais rígido que o Sarkozy, embora seja difícil dizer até que ponto ambos tentavam conquistar os partidários de Marine Le Pen…

Vivemos realmente uma época de transição. Vamos ver se nas eleições nos Estados Unidos teremos alguma surpresa – embora ache difícil, os franceses me parecem muito mais politizados.

E a África? Também na Economist

Não que o assunto fosse novidade, como mencionei no post anterior, mas foi bastante curioso ver que a Economist publicou uma matéria entitulada “Africa rising”, abordando aspectos parecidos. Claro que muito melhor fundamentada, a matéria aborda questões como corrupção, doações do Ocidente, crescimento… Vale a pena a leitura: “The hopeful continent: Africa rising”.